sexta-feira, 18 de julho de 2014

Importância do Reforço Positivo no Desporto

É, sem dúvida, num contexto desportivo, desprovido de preocupações, que consigo ter maior noção das repercussões de um desempenho parental inadequado na saúde psicossocial das crianças. A verdade é que nos últimos anos, são cada vez mais frequentes, as situações que presencio em que os pais tornam os filhos as suas cobaias de realização pessoal ou que exigem que estes sejam os melhores nas inúmeras atividades que praticam, sendo que quando isso não acontece humilham e desvalorizam as capacidades da criança. 
Foi quando uma criança com oito anos, veio-me dizer, perplexa, que tinha passado de nível na natação e achava isso muito estranho, pois o pai dizia-lhe sempre que ele não era bom em nada, que dei por mim a refletir sobre a importância do reforço positivo (por parte dos pais e treinadores) no desporto, uma vez que, a meu ver, é nosso dever ter estas situações como alvo de atenção! Esta mesma criança que referi, mostra constantemente sentimentos de tristeza, frustração, ansiedade, baixa auto-estima, desinteresse pela aprendizagem e muitas dificuldades em relacionar-se com as outras crianças.
Vamos portanto procurar a origem do problema. Com um mercado de trabalho cada vez mais exigente e uma visível diminuição das oportunidades, há um aumento significativo da competitividade e pressão social levando a que, inevitavelmente, todos os pais queiram que os seus filhos adquiram o maior número de conhecimentos, no menor tempo possível, por forma a garantir-lhes um futuro promissor. O que acontece é que, nesta busca frenética por conhecimento, os pais envolvem as crianças em atividades extracurriculares cada vez mais numerosas e exigentes. Assim, as atividades que deveriam enriquecer a criança, tornam-se um fator stressor. Tais pais encaram a escola como uma pista de competição e, mesmo antes dos seus filhos aprenderem português, já exigem que saiba falar inglês, tal como antes de saberem andar, já expectam que vai ser o melhor jogador do mundo. Depois, quando isso não acontece, contestam o caráter da criança e realçam as suas inadaptações.
Ainda que a maior parte dos pais não tenha esta noção (e obviamente não o faça propositadamente), estas atitudes diminuem a autoestima da criança, criam ansiedade, medo de errar e consequente desmotivação para as atividades. A pressão excessiva traz problemas emocionais, relacionais e éticos. 
É fundamental que os pais percebam que deverá ser encontrado um equilíbrio entre as suas expectativas relativamente à criança e aquilo que a criança é capaz e gosta de fazer, por forma a evitar que a mesma cresça sob pressão e no meio de atividades que não a deixam feliz. É importante ter em consideração que cada criança possui as suas próprias forças e limites, assim como o seu próprio ritmo de aprendizagem e trabalho. Como tal, não é porque os pais gostavam que ele fosse bom em determinada atividade, ou porque gostavam de a ter praticado/praticaram na sua própria infância, que o seu filho têm também de a praticar.
A criança precisa de ser criança e, ainda que as atividades extracurriculares tenham efeitos muito benéficos a curto/longo prazo, pois promovem competências pessoais, cognitivas, sociais e físicas, devem ser comedidas, pois, na infância, tão importante quanto o desenvolvimento da componente académica, é fomentar o desenvolvimento das competências sociais e valores pessoais, através do simples jogar, brincar, ler ou conviver com os colegas. Estas componentes acabam negligenciadas quando os pais vêem o desporto como uma competição em que apenas o sucesso (vitórias, prémios, ...) interessa.
Importa-nos a nós, enquanto monitores/treinadores de camadas jovens, passar a mensagem que uma prática parental positiva passa por valorizar os esforços realizados e a aprendizagem obtida e não apenas os sucessos. Mais do que criticar o que está errado, importa elogiar o que está certo, pois os filhos aprendem a gostar do que fazem e trabalham melhor quando se sentem valorizados. Tudo isso alimenta a autoestima, reforça a autoconfiança e ajuda a construir uma identidade equilibrada, na medida em que, quem é autoconfiante tem ima imagem positiva de si mesmo, apesar de reconhecer as suas limitações. Acreditando em si próprios, as crianças tornam-se persistentes e sem medo do fracasso, pois vêm a vida como um desafio e confiam que, com empenho, esforço e método é possível vencer os obstáculos e atingir objetivos, Quem se considera incapaz, não faz esforço e antecipa o insucesso. O sentimento de incapacidade é paralisante. Todas as crianças tem talentos e gostos diferentes, cabe aos pais E TREINADORES descobrir e valorizar o melhor de cada um deles. 
A boa educação é um tesouro interior, um património indestrutível que mantém o seu valor em qualquer lugar e em qualquer circunstância, durante toda a vida.

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