É sempre preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos de viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos, virando a folha, não importa o nome que damos. O que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram. Podemos passar muito tempo a perguntar-nos o porquê de determinadas coisas terem acontecido. Podemos perguntar a nós mesmos as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas na nossa vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso. Deveríamos ter asco ao porquê. É a fórmula dos desocupados, dos tinhosos, dos raquíticos. Que adianta o porquê? A razão escolhe-se para ser razão.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está a acontecer no nosso coração. E o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar. Não podemos estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem connosco.O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios,…
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. As pessoas precisam de entender que ninguém joga com cartas marcadas, às vezes ganhamos e às vezes perdemos. As coisas passam e há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. Enquanto não encerramos um capítulo, não podemos partir para o próximo. Por isso é tão importante deixar certas coisas irem embora…
Não devemos esperar que nos devolvam algo, que reconheçam o nosso esforço, que descubram a nossa índole, que entendam o nosso amor. Encerrar ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na nossa vida. Fechemos a porta, mudemos o disco, limpemos a casa, abramos a janela, sacudamos a poeira e deixemos o sol entrar. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
Já dizia Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades, Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança: Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem as saudades."
