segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O que querem os enfermeiros?

"Os enfermeiros querem algo tão simples quanto simplesmente ser enfermeiros. No entanto a simplicidade do pedido encerra tamanha complexidade que perplexa o comum juízo. Há demasiado tempo que nos pedem que desistamos de ser enfermeiros, para simplesmente exercermos enfermagem. 
Trabalhamos em horas diferentes, seguramos a mão dos pais de alguém, dos avós de alguém, dos filhos de alguém, escondendo por detrás do sorriso permanente a preocupação de não haver ninguém a segurar a mão dos que amamos. Entregamos o nosso esforço físico e intelectual permanente para responder aos desafios constantes da doença de cada um. Comprometemo-nos com o cuidado que prestamos, para que a resposta nunca seja igual, seja sim cada vez melhor, seja manhã, fim da tarde ou madrugada; quem ama cuidar fá-lo, seja sob a luz brilhante ou sob o mais ténue crepúsculo.
Choramos porque cuidar não deixa ninguém indiferente, sorrimos em gargalhadas ruidosas porque a alegria das conquistas é contagiosa, calamo-nos em silêncios cúmplices e tagarelamos quando a palavra é o melhor dos curativos.
Para tudo isto, precisamos que nos deixem ser enfermeiros, os operários que se transcendem na execução da enfermagem, passando a ser artistas numa ciência que não cessa de se transcender a si própria em cada um dos seus gestos do dia-a-dia, inspirada pelos professores exemplares que são aqueles que cuidamos. Não necessitamos de pena pelas dificuldades de ser enfermeiro, necessitamos sim que nos respeitem no que fazemos. Necessitamos de rácios dignos para que o cuidar não seja uma sucessão de atos banais, cronometrados e informais: tratamos pessoas e somos pessoas."

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Férias. Praia da Areia Branca, Lourinhã

Água fria, muito iodo, ondas grandes, pocinhas nas rochas quando a maré está vazia, cheiro a limos e a algas, assim é a Praia da Areia Branca. O tempo é sempre uma incerteza. O mar vira quando muda a lua e a cor da bandeira quer mesmo dizer qualquer coisa. Aqui, os nadadores salvadores treinam para super-heróis porque todos os verões salvam mesmo alguém. Os toldos têm como utilidade principal proteger da cacimba ou da nortada e não do sol que prefere ir passar férias ao Algarve. As idas ao mar são por diversão e como prova de valentia e não devido ao calor. Quando se volta à toalha, as extremidades do corpo estão anestesiadas e o fato de banho repleto de areia. Eis a prova de que se sobreviveu estoicamente à arrebentação. Assim são as minhas férias. A ir para a praia de manhã para cumprir uma rotina, com a esperança de que o céu "abra" à hora de almoço e o sol dê um ar da sua graça. A praia é um cenário, e vai muito além da areia e do mar.  O cenário é toda uma vila por onde, em cada esquina, se encontra alguém que nos conhece desde que nascemos. A cacimba, a nortada e a água gelada são pormenores. Pormenores que não interferem na imensa felicidade inerente a estes momentos únicos.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Importância do Reforço Positivo no Desporto

É, sem dúvida, num contexto desportivo, desprovido de preocupações, que consigo ter maior noção das repercussões de um desempenho parental inadequado na saúde psicossocial das crianças. A verdade é que nos últimos anos, são cada vez mais frequentes, as situações que presencio em que os pais tornam os filhos as suas cobaias de realização pessoal ou que exigem que estes sejam os melhores nas inúmeras atividades que praticam, sendo que quando isso não acontece humilham e desvalorizam as capacidades da criança. 
Foi quando uma criança com oito anos, veio-me dizer, perplexa, que tinha passado de nível na natação e achava isso muito estranho, pois o pai dizia-lhe sempre que ele não era bom em nada, que dei por mim a refletir sobre a importância do reforço positivo (por parte dos pais e treinadores) no desporto, uma vez que, a meu ver, é nosso dever ter estas situações como alvo de atenção! Esta mesma criança que referi, mostra constantemente sentimentos de tristeza, frustração, ansiedade, baixa auto-estima, desinteresse pela aprendizagem e muitas dificuldades em relacionar-se com as outras crianças.
Vamos portanto procurar a origem do problema. Com um mercado de trabalho cada vez mais exigente e uma visível diminuição das oportunidades, há um aumento significativo da competitividade e pressão social levando a que, inevitavelmente, todos os pais queiram que os seus filhos adquiram o maior número de conhecimentos, no menor tempo possível, por forma a garantir-lhes um futuro promissor. O que acontece é que, nesta busca frenética por conhecimento, os pais envolvem as crianças em atividades extracurriculares cada vez mais numerosas e exigentes. Assim, as atividades que deveriam enriquecer a criança, tornam-se um fator stressor. Tais pais encaram a escola como uma pista de competição e, mesmo antes dos seus filhos aprenderem português, já exigem que saiba falar inglês, tal como antes de saberem andar, já expectam que vai ser o melhor jogador do mundo. Depois, quando isso não acontece, contestam o caráter da criança e realçam as suas inadaptações.
Ainda que a maior parte dos pais não tenha esta noção (e obviamente não o faça propositadamente), estas atitudes diminuem a autoestima da criança, criam ansiedade, medo de errar e consequente desmotivação para as atividades. A pressão excessiva traz problemas emocionais, relacionais e éticos. 
É fundamental que os pais percebam que deverá ser encontrado um equilíbrio entre as suas expectativas relativamente à criança e aquilo que a criança é capaz e gosta de fazer, por forma a evitar que a mesma cresça sob pressão e no meio de atividades que não a deixam feliz. É importante ter em consideração que cada criança possui as suas próprias forças e limites, assim como o seu próprio ritmo de aprendizagem e trabalho. Como tal, não é porque os pais gostavam que ele fosse bom em determinada atividade, ou porque gostavam de a ter praticado/praticaram na sua própria infância, que o seu filho têm também de a praticar.
A criança precisa de ser criança e, ainda que as atividades extracurriculares tenham efeitos muito benéficos a curto/longo prazo, pois promovem competências pessoais, cognitivas, sociais e físicas, devem ser comedidas, pois, na infância, tão importante quanto o desenvolvimento da componente académica, é fomentar o desenvolvimento das competências sociais e valores pessoais, através do simples jogar, brincar, ler ou conviver com os colegas. Estas componentes acabam negligenciadas quando os pais vêem o desporto como uma competição em que apenas o sucesso (vitórias, prémios, ...) interessa.
Importa-nos a nós, enquanto monitores/treinadores de camadas jovens, passar a mensagem que uma prática parental positiva passa por valorizar os esforços realizados e a aprendizagem obtida e não apenas os sucessos. Mais do que criticar o que está errado, importa elogiar o que está certo, pois os filhos aprendem a gostar do que fazem e trabalham melhor quando se sentem valorizados. Tudo isso alimenta a autoestima, reforça a autoconfiança e ajuda a construir uma identidade equilibrada, na medida em que, quem é autoconfiante tem ima imagem positiva de si mesmo, apesar de reconhecer as suas limitações. Acreditando em si próprios, as crianças tornam-se persistentes e sem medo do fracasso, pois vêm a vida como um desafio e confiam que, com empenho, esforço e método é possível vencer os obstáculos e atingir objetivos, Quem se considera incapaz, não faz esforço e antecipa o insucesso. O sentimento de incapacidade é paralisante. Todas as crianças tem talentos e gostos diferentes, cabe aos pais E TREINADORES descobrir e valorizar o melhor de cada um deles. 
A boa educação é um tesouro interior, um património indestrutível que mantém o seu valor em qualquer lugar e em qualquer circunstância, durante toda a vida.

"Eis a geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso"

"Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos."

Mia Couto

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Regresso - Sub10 OBC

Desde o meu último jogo, praticamente todos os dias, relembro algo que me ensinaram dentro destas quatro linhas.

Passados dois anos, regresso. Foram dois anos em que praticamente a tempo inteiro percebi que durante toda a minha vida vou precisar de pensar como pensaria lá dentro. Durante este tempo, e não apenas porque fui para um curso – enfermagem - no qual é expressamente necessário possuir todos estes valores, senti necessidade de colocar em prática todas aquelas lições que durante anos me foram transmitidas.

"You’ve to practice dedication, team work, patience, unity and love. And if we can practice all those things to make our game better, we can practice those things to make our world better. …Basketball is just a game…but sometimes is more than that."

O basquetebol ensina-nos que nunca obteremos sucesso sem valores como a cooperação, o trabalho em equipa, o respeito, a justiça, o empenho e dedicação. Ensina-nos ainda a saber valorizar o que somos, a trabalhar o que temos, não perdendo tempo a criticar as circunstâncias externas. Ensina-nos que “o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário” e que, assim como na vida, “jogar” para ganhar é diferente de jogar para evitar perder e pior do que perder é sentir medo de perder.

Ajuda-nos previamente a compreender que a vida se faz de sucessos e insucessos e que é importante aprender com os insucessos que vão surgindo.

Levante-te e sorri, disseram-me um dia. Vencer aqui, é vencer lá fora; não enquanto jogador, mas enquanto pessoa. Desde cedo foi isto que os meus treinadores me transmitiram, pois no basquetebol, assim como na vida, se perdemos um jogo perdemos pouco, mas se perdemos a coragem, perdemos tudo!

O basquetebol é uma amostra da vida, uma escola onde atitude é altitude.

E por ter a perfeita noção que é um lugar, em qualquer idade, privilegiado à formação, regresso mas para o lado de lá. O lado daqueles que em tempos me ensinaram muito do que hoje sei, não só como jogadora, mas como pessoa. Regresso com o objetivo de continuar a aprender, mas principalmente com o ideal de transmitir os valores a que hoje dou imenso valor e também a mim me ensinaram.

Sábado foi um dia em que comecei tudo de novo. Tal qual como no primeiro dia. De baixo, perspetivando o cimo. Digo que “comecei” e não “recomecei”, porque a verdade é que a experiência que adquirimos numa fase da nossa vida, por vezes não nos serve de muito quando chegamos à fase seguinte. Apesar da experiência que vamos adquirindo, chegamos, a cada uma das nossas épocas, inexperientes e inseguros como da primeira vez.
A vida, na sua magnífica diversidade e o basquetebol mais especificamente, vai-nos oferecendo constantemente novas situações, para as quais nunca estamos verdadeiramente preparados. Não que isto seja mau, é precisamente quando sentimos estas limitações da experiência que somos forçados a crescer continuamente. Não estagnamos, porque temos constantemente objetivos diferentes que dão colorido ao nosso desafio.
A verdade é que neste ponto da situação, conservando o sabor das vitórias e derrotas passadas, se temos saudade do que ficou atrás, também nos é permitido sonhar com o que está adiante, planeando as vitórias que se seguem. E para isso, para nos divertirmos, para nos sentirmos como aventureiros no meio de tudo isto, temos apenas de ter coragem. Coragem de não calarmos aquilo que dentro de nós nos chama a um sonho, clama por aventura, pede para fazermos qualquer coisa grande. O basquetebol é isso mesmo, é lutar por aquilo que se acredita, é ter cabeça erguida humildemente e pensar que nada é impossível, pois os sonhos do passado, são a força do presente e podem tornar-se realidade no futuro. O limite é o céu, mas o céu não tem limites.


"Our deepest fear is not that we are inadequate. Our deepest fear is that we are powerful beyond measure. It is our light, not our darkness, that most frightens us. Your playing small does not serve the world. We are all meant to shine as children do. It's not just in some of us. It is in everyone."